Objetivos do Treinamento

Existe apenas uma coisa imutável na sociedade humana: a mudança permanente!

O Aikido deve proporcionar aos alunos mudanças: mudanças de atitudes (nos modos de pensar, sentir e agir).

Tais mudanças devem ser obtidas através da colocação à disposição dos alunos  de elementos cognitivos (possibilitando-lhes a aquisição de conhecimentos teóricos e práticos das técnicas e da filosofia),  automativos (que lhes permitam a correta repetição dos gestos, das posturas, e da movimentação própria da arte defensiva) , e emotivos (criando-lhes a oportunidade de identificação individual com os propósitos da arte marcial de proteção da pessoa humana, e a superação do medo).

Tais mudanças implicam em adequado treinamento de técnicas, estruturadas de modo progressivo, em oportunidade para reflexão de natureza ética, a respeito daquelas que devam ser empregadas em situações concretas, e em procedimentos dinâmicos repetitivos, que possibilitem a geração de automatismos e de superação do medo.

Num período inicial, deve ser exigida dos alunos apenas a correção na execução das técnicas; nos períodos posteriores, além dessa, deverão apresentar também desenvoltura na execução dos movimentos básicos, precisão, e automatismo.

Os treinamentos deverão possibilitar-lhes a autodefesa contra agressores, sua imobilização e condução, e também que aqueles que se preparam para ser instrutores, conheçam a Metodologia de Ensino de Aikido.

Sob tal enfoque, as abordagens devem ser, a um só tempo, físico-técnicas e filosóficas.

Além da grande eficiência de suas técnicas, é principalmente com lastro nas razões filosóficas que se indicam as técnicas de Aikido como a base de um  treinamento de Defesa Pessoal, uma vez que, a partir do princípio de não-agressão, que dá suporte a esta Arte Marcial, todas as suas técnicas iniciam-se a partir de um movimento agressivo de outrem.

Por conseguinte, ao cumprir o seu programa de treinamento, o aluno deverá ser capaz de:

-         Evitar lesões, ao sofrer quedas, quer por acidentes, quer por ações de eventuais agressores;

-         Executar técnicas de projeções e de controle, iniciadas a partir de movimentos agressivos de outrem;

-         Defender-se de agressões, sem uso de armas, estando o oponente desarmado, ou portando bastão, arma branca, ou arma de fogo;

-         Imobilizar em decúbito ventral pessoas agressivas, e/ou conduzi-las por curtas distâncias, com um mínimo de risco e de emprego de energia, e o máximo de eficiência;

-         Assegurar a integridade física do oponente ;

-         Superar o medo, ante gestos agressivos humanos;

-         Retransmitir as habilidades e os conhecimentos adquiridos.

A SUPERAÇÃO DO MEDO NO SER HUMANO

(PSICOLOGIA FISIOLÓGICA)

O quê é o medo? Você sabe que há uma causa fora de você: o perigo, atual ou potencial; mas, quais são as causas em você dessas reações psico-fisiológicas? Há alguma coisa que você possa  fazer para eliminar o medo?

A sobrevivência de todo organismo vivo implica em aproximação como comportamento básico: os animais (e também os seres humanos) necessitam encontrar o seu sustento no ecossistema respectivo (na natureza, e na sociedade humana).

Mas, a natureza impõe também o afastamento como comportamento básico de sobrevivência das espécies: é necessário que os animais evitem, ou que fujam dos perigos _ representados pelos predadores, venenos, alturas (quedas), água (afogamento), ou pelo fogo (queimaduras)_. Para tal proteção, foram desenvolvidos mecanismos naturais de fuga, dos quais o mais simples é o reflexo de retraimento que atua sobre o Bulbo e sobre a Medula Espinhal.

Até mesmo um ruído súbito, quando inesperado, produz uma resposta protetora de recuo ou de alarme. Os receptores do paladar que respondem às substâncias amargas suscitam cuspidas reflexas, como proteção contra alguns venenos, e já encontramos o mecanismo mais implicado, graças ao qual os animais aprendem a evitar os cheiros e sabores que, em ocasiões anteriores, foram seguidos de náusea ou de doença. Os objetos que se aproximam rapidamente ou que se expandem depressa (que produzem efeitos semelhantes sobre a retina) suscitam um piscar de olhos e fazem a maioria de animais correr para longe. (…)”. (Pág. 423-MILNER, Peter M. Psicologia fisiológica. Tradução de Heloysa de Lima Dantas, Editora Cultrix Ltda, 1978, São Paulo, SP, 601 páginas).

Podemos dizer que esse tipo de medo é inato, ou natural, e faz parte da própria estrutura de proteção das espécies.

Numa outra situação, você caminha por uma rua, ou um local ermo e escuro. Repentinamente, alguns indivíduos avançam em sua direção. Você sente seu coração disparar. Sua respiração também acelera. Suas mãos, repentinamente, encontram-se suadas. A superfície de sua pele é percorrida por um arrepio. Você se sente dominado pelo medo!

Esse tipo de medo, pode-se dizer, tem causa de ordem racional, uma vez que decorre de associações de idéias quanto a riscos potenciais, face às experiências do dia-a-dia, à circulação de informações a respeito de crimes perpetrados na vizinhança, ao noticiário jornalístico sobre a violência urbana, etc. _ quais seriam as intenções de tais pessoas?_

Ele decorre, então, de experiências vividas, ou por qualquer outro modo conhecidas.

Muitos psiquiatras ainda parecem admitir que as fobias se aprendem em experiências traumáticas mas, embora uma experiência desagradável possa intensificar uma fobia em algumas pessoas, a facilidade com que certos estímulos (como a água, o sangue ou a escuridão) podem ser associados ao medo, contraposta à dificuldade com que essas associações são estabelecidas com outros estímulos mais objetivamente perigosos (cigarros, por exemplo) torna muito plausível a afirmação de que os circuitos potenciais para essas associações são inatos(…)”(MILNER, Peter M. Op. Cit. Pág. 430).

O que fazer, então, para superar o medo, uma vez que a própria experiência da vida urbana fatalmente nos colocará em situações de perigo?

Recorramos, novamente ao texto do Dr. Milner:

Em geral o medo se atenua com a adaptação (como entre os animais) mas são bastante comuns os medos graves e persistentes, fazendo-se necessário um treinamento mais intensivo para superá-los(…) animais intactos domados, ou domesticados, não reagem a qualquer toque com um ataque violento, como fazem as preparações hipotalâmicas; parece portanto, evidente a existência de estruturas inibidoras no cérebro anterior.” (Op. Cit. Pág. 443, grifei ).

O modo de superar os medos (sejam eles inatos ou naturais, sejam os racionais) consiste, consequentemente, em repetitivo treinamento de ações, ante circunstâncias semelhantes àquelas dos perigos geradores das fobias.

Destarte, quando se executam freqüentes treinamentos em técnicas de defesa pessoal contra agressões diversas _ estando o agressor ora armado, ora inerme _, o automatismo adquirido transmite, nos dois planos _ natural e racional _, tranquilidade diante de gestos agressivos semelhantes: você encontra-se simplesmente diante do “filme que já viu inúmeras vezes” e, como tal, sabe qual será o desfecho imutável: uma pessoa que se encontrava desequilibrada psicologicamente sendo imobilizada e conduzida por você.


img_3533 img_3543 Albano Correa Neto Sensei Lagares
A Militar Mineira